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Caminhada na Serra da Esperança

A ida à Serra da Esperança foi a primeira viagem de carona com destino diferente do que a casa dos pais. Eu e o Julio (companheiro de república) planejávamos viagens de carona, como a que fizemos posteriormente à Ilha do Mel, e precisávamos testar a ideia. Foi por esse motivo que escolhemos um local próximo e com o qual tivéssemos um mínimo de familiaridade.

A “expedição” seria rápida e com poucos preparativos. Basicamente sair de casa muito cedo, tomar nosso posto na lombada, fazer uma cara amigável, conseguir uma carona, descer até o último viaduto da Serra da Esperança e percorrer um pouco da paisagem que conhecíamos apenas pela janela do carro ou do ônibus. Após a caminhada, ir até o posto de gasolina próximo ao pedágio e convencer alguém a nos dar uma carona de volta a Guarapuava. Na mochila, apenas comida, uma muda de roupa para a volta e máquina fotográfica para registrar onde havíamos estado. Só depois da caminhada é que perceberíamos que a familiaridade conquistada olhando pela janela do ônibus ou do carro não era exatamente o nível mais indicado.

Rumo à serra

Tomamos o nosso posto na lombada, aguardamos pouco tempo e logo encontramos uma pessoa amigável para nos levar até o nosso destino. Conseguimos carona com um casal. Não me recordo para onde iam, mas passariam pela serra. Era só o que precisávamos. Nos apresentamos e o motorista nos perguntou para onde íamos. Falamos que pretendíamos ficar logo após o último viaduto da serra. Impossível não reparar no olhar surpreso de ambos. Explicamos que iríamos explorar a região e depois voltar a Guarapuava. Como os primeiros pingos de chuva já começavam a cair, nosso carona falou com uma franqueza curiosa:

– É… pra quem gosta de merda, é um prato cheio!

Só podíamos rir, meio sem jeito, mas não adiantava tentar explicar que era isso ou então ficar em casa olhando a chuva pela janela e que isso não estava nos planos. Não me recordo se isso foi em 1998 ou 1999. De qualquer forma, assim como nas viagens subsequentes, orçamento zero e pouco juízo. Mesmo que tivéssemos verificado a previsão do tempo, caso fosse de chuva (e já estávamos vendo que era!), isso seria apenas mais um elemento que seria considerado como diversão. Na prática, a chuva não foi exatamente um elemento divertido em toda a sua extensão.

O trecho até a serra era curto, uns 25km. Conversamos trivialidades com o casal e logo após passarmos o último viaduto o motorista confirmou se era isso mesmo que queríamos, se não havíamos mudado de ideia e parou o carro no acostamento. Agradecemos, nos despedimos e ficamos pensando pra que lado ir! Descemos pela lateral do viaduto. Olhando em direção a Guarapuava, o morro do chapéu está à direita e à esquerda um riacho desce pelo vale. Arriscamos descer e ir para a direita, em direção ao morro do chapéu. O cenário embaixo do viaduto é algo curioso. A quantidade de restos de carros e caminhões que se encontram ali é de espantar, muito do que cai não volta e fica por lá esquecido. Tentamos uma breve caminhada em direção ao morro, mas logo percebemos que sem alguém que conhecesse o local, seria muito arriscado.

A caminhada

Para onde, então? Eventualmente se consegue ver uma cachoeira quando se passa pela rodovia, na direção oposta. Seguir o rio seria simples e uma boa forma de nos guiarmos. A chuva que havia parado ainda ameaçava cair a qualquer momento. Fomos seguindo rio acima. Caminhada relativamente tranquila, naquelas condições. Se chovesse, a coisa poderia mudar. A chuva que havia parado, cumpriu a promessa pouco adiante. Pedras ficando lisas, mochilas e tudo que havia nelas ficando encharcado. Tudo que havia nas mochilas NÃO incluía cordas, nem faca ou facão para emergências.

A chuva que inicialmente era algo desconfortável deixou de incomodar por um tempo. Mais um tempo e ela voltou a incomodar novamente e assim foi. Mais um pouco de caminhada e o som de uma cachoeira significava vitória. Já havíamos passado algumas horas caminhando e a fome era mais um dos elementos atrapalhando, junto com a chuva, as pedras escorregadias e a AUSÊNCIA das cordas. De fato, mesmo, a ausência das cordas seria muito mais decisiva na volta, mas até ali não víamos isso com tanta clareza.

Um pouco mais de caminhada e conseguimos ver a cachoeira. Pelo que percebemos, essa cachoeira não era a mesma que poderíamos ver da rodovia. Seja como for, era o nosso prêmio pela caminhada até ali. Chovia, e tiramos pouquíssimas fotos. Paramos, tiramos a comida da mochila e comemos embaixo de chuva mesmo. A única foto que mantenho dessa caminhada, é essa, logo abaixo, com pingos de chuva e sujeiras na lente.

Péssima, esverdeada e, com boa vontade, quem me conhece vai me reconhecer, apesar da pouca idade, ausência de barba e cabelos compridos.

Registrada a conquista, enfrentar o caminho de volta. Aí é que as cordas que não havíamos levado para instalar em pontos estratégicos fizeram uma falta tremenda. Impossível voltar exatamente por onde fomos. Em muitos pontos, a perspectiva de escorregar pelas pedras altas nos levava a crer em hematomas feios na melhor das hipóteses e algum osso quebrado na pior delas. Nos pontos mais altos optamos por seguir pelas encostas, onde podíamos nos segurar nas árvores e fazer o trajeto com muito mais segurança, apesar da distância aumentar significativamente. A distância era um preço baixo quando lembrávamos que o caminho mais curto poderia ser bem mais doloroso. Desce, desce… desce mais, sobe, desce, chuva, barro, rio e continua a descida. Uma ou duas cercas pelo caminho e chegamos ao ponto de partida.

De volta pra casa

A caminhada até o posto de gasolina próximo ao pedágio seria feita pelo acostamento da rodovia. Pelo cansaço, pegaríamos carona ali mesmo. Obviamente, não era um bom plano. Seguimos até o posto, banho rápido pra tirar a lama. Roupas para trocar, encharcadas, mas com a vantagem de estar limpas. Conversamos com algumas pessoas, explicamos que precisávamos voltar a Guarapuava e logo estávamos no caminho de casa. A chuva já dera uma trégua. Chegamos em Guarapuava ao entardecer. Pernas doloridas e a sensação de que havíamos cometido um erro grave em não levar cordas e em não planejar melhor a caminhada. Apesar disso, percebemos que a ideia poderia dar certo. O próximo passo era planejar uma viagem um pouco mais longa…

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Sobre Ricardo Rech

Adora viajar, fotografar e escrever. Viajando descobriu que, no seu caso, o que realmente importa na vida são as histórias pra se viver e pra contar. E ainda acha estranho falar de si mesmo em terceira pessoa.

Um comentário em “Caminhada na Serra da Esperança

  1. Marly
    junho 4, 2013

    Loucura total. Mas é assim que se aprende….

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